5 artigos sobre relacionamentos que não aguentamos mais ler

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Eu adoro artigos sobre relacionamentos, inclusive o suficiente para escrever uma penca deles. Mas o tipo de texto que gosto de ler e escrever é aquele que te faz refletir sobre como você se relaciona – sobre suas próprias inseguranças, suas atitudes, como os outros te tratam, quais são os modelos de amor oferecidos pela mídia e pela arte.

Me bate uma tristeza quando vejo textos que não se propõem a questionar e estão mais interessado em ditar regras a serem seguidas, como se namorar ou se apaixonar fosse um protocolo.

Artigos assim fazem sucesso porque nos dão uma sensação ilusória de segurança e fazem relações parecerem menos complexas do que realmente são – além de reforçarem uma série de estereótipos batidos sobre gênero, já que a maioria é escrita para adestrar casais heterossexuais.

Aí estão os conselhos que eu estou cansada de ler, seja nas revistas femininas, seja em blogs, seja no formato de textão de Facebook.

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1) O que fulaninho realmente quer dizer?

Esse tipo de pauta consegue transformar qualquer interação banal em um intricado exercício de semiótica. Geralmente se baseia no suposto fato de homens e mulheres serem de planetas diferentes e se propõe a nos aproximar do indecifrável sexo oposto.

Essa falsa aproximação cumpre mesmo é a função de nos manter afastados, porque promove a ideia de que homens e mulheres são tão diferentes a ponto de precisarmos aprender mecanicamente uma série de códigos para conseguir decifrar uns aos outros  – em vez de, sei lá, tentar desenvolver empatia e diálogo.

Além disso, costumam defender a tese de que homens são “simples e diretos” e mulheres são “misteriosas, confusas e nunca dizem o que realmente querem dizer”. Me pergunto se as pessoas responsáveis por escrever essas besteiras realmente interagem com homens ou mulheres reais ou se elas nascem, crescem e morrem sozinhas em uma sala onde o único material de leitura disponível são livros de auto-ajuda do John Gray (minha noção de como seria o inferno).

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2) Descubra agora se ele está te traindo!

Por que se comunicar diretamente com o seu parceiro se você pode simplesmente elevar a sua paranoia a um nível hitchcockiano? Esses textos costumam ilustrar uma série de “sinais” que o infiel deixa, aos quais você deve prestar atenção para garantir que não está sendo enganada.

Uma análise rápida mostra que os comportamentos citados não são necessariamente sinais de que a pessoa está te traindo, e sim de que você nem deveria estar com ela em primeiro lugar, como possessividade, te ignorar com frequência, descontar o estresse em você constantemente ou sempre te trocar pelos amigos. Aí fica parecendo que ser maltratada pelo namorado só é problema se o motivo for uma traição.

Esses artigos por vezes acabam justificando comportamentos obsessivos e nada saudáveis. Um site, por exemplo, menciona uma personagem que verificava as chamadas na conta do celular do namorado e descobriu a traição ao identificar um número desconhecido e recorrente. Não vejo porquê meter mais caraminholas na cabeça de quem claramente já está muito desequilibrado.

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3) Conheça o segredo para salvar sua vida amorosa e nunca mais sofrer!

Desconfio na hora de artigos que se propõem a solucionar milagrosamente todos os problemas amorosos do mundo com apenas um  “segredo” ou uma “mudança de atitude”. É como se fôssemos pobres criaturas perdidas e o autor do texto em questão tirasse a nossa venda para enxergar a grande verdade sobre o amor.

A real é que não existe essa grande verdade. Cada relacionamento é complexo e possui suas especificidades. Como diz Estela Rosa em A vida não é um miojo, não existem soluções simples e instantâneas. Vamos sempre ter que nos ajustar e descobrir novos modelos de nos relacionar e hábitos a serem mudados – e esse processo leva tempo.

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4) X coisas que homens odeiam nas mulheres

Sempre que vejo esse tipo de artigo fico com a sensação de que o problema é nós sermos mulheres e não um console de videogame. Sinceramente, quem se importa? Tanto faz você seguir os conselhos desses textos ou não: o tipo de cara que tem essas exigências vai acabar inventando um motivo para te odiar gratuitamente, porque é isso mesmo que ele quer fazer.

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5) O blá blá blá da geração que não sabe mais amar

Bom, eu jamais poderia discordar de que o capitalismo molda as nossas interações sociais etc. Por outro lado, a vez em que eu tentei ler Amor líquido, de Zygmunt Bauman, fiquei com a impressão de estar diante de um conjunto de frases de corrente do Whatsapp organizadas em prosa.

Como não sou socióloga, vou dar ao Bauman o benefício da dúvida, mas boa parte dos textões derivativos do seu trabalho que circulam por aí não me incomodam por declarar que as relações estão “mais flexíveis” e “instáveis” – porque elas estão mesmo.

O que me incomoda é esse ranço de que no passado os casais se comprometiam mais. Colega, algumas décadas atrás a sua avó não aprendia a escrever e aos 13 anos já entrava num casamento arranjado com um desconhecido que tinha no mínimo o dobro da idade dela.  Não existia de divórcio no Brasil e quando ele passou a existir (em 1977, vale lembrar), ser uma mulher divorciada era um puta de um estigma.  

Sem contar o fato de que era bem comum um homem ter mais de uma família ou abandonar a esposa, deixando ela sem nenhum tostão e com os rebentos para criar. E as mulheres negras que eram frequentemente relegadas à condição de amante, sustentadas por um tempo e depois descartadas? A regra era os casais ficarem juntos não porque se amavam muito ou porque sabiam se comprometer, e sim porque era a opção menos pior – ou porque não havia outras opções. Se amar pro resto da vida é que era a exceção.

Que tal nos sentirmos gratos por viver numa época em que temos um pouquinho mais de autonomia para escolher com quem nos relacionamos e até por quanto tempo?

Texto por:

amanda

Criadora do blog Deixa de Banca – www.deixadebanca.com.br

 

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