Se apaixone como em uma comédia romântica

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Eu adoro comédias românticas porque crescer assistindo um largo volume delas me fez sonhar, me trouxe expectativas irrealistas sobre relacionamentos heterossexuais, me fez acreditar em ideias que prejudicam minha saúde mental – e principalmente porque, a partir do momento em que eu enxerguei tudo isso, elas me fizeram rir mais ainda. Perceber o quão absurdos são os modelos de relacionamentos oferecidos por Hollywood é um exercício de humor que me fascina.

Ninguém espera que comédias românticas tenham a mesma linguagem de um documentário factual sobre o amor. É do gênero ser simplista e irreal, mas isso não significa que as ideias reproduzidas por esse tipo de filme não tenham o poder de movimentar nossa imaginação e nossas expectativas sobre relacionamentos, principalmente quando falamos do público-alvo central desses produtos, garotas heterossexuais. Então aqui vai, passo a passo, um manual para conseguir amar, de acordo com Hollywood.

Seja hétero e branca

Se você for lésbica, você ou sua namorada (ou ambas!) vão morrer no final, ou então todo o filme irá ser centrado na dificuldade da sua pobre família em lidar com a própria lesbofobia (olá, Casamento de Verdade). E se você for bissexual, tanto faz, porque você vai acabar se casando com um homem mesmo, certo, Jessica Stein? E nem mesmo consigo citar uma comédia romântica famosa protagonizadas por uma mulher negra, o que é doloroso demais para eu conseguir fazer uma piada – mais sobre isso aqui, em inglês.

Não se conheçam

Nada é mais capaz de despertar paixão do que a ignorância completa. Quanto menos vocês interagirem, mais intenso será o amor. No final de A garota de rosa shocking, Blane declara que amará a personagem principal, Andie, para sempre. Mesmo que os dois tenham interagido só pelo intervalo de uma semana, no qual todas as conversas – curtas e truncadas, diga-se de passagem – levavam à conclusão de que os dois não tinham nenhum interesse em comum.

Filmes românticos de Hollywood confundem amor com atração e nos fazem pensar que, se queremos tanto pegar aquele tilelê gato ou o moleque pedante da filosofia, é óbvio que somos feitos um para o outro – embora não consigamos ter uma conversa por mais de 15 minutos nem tenhamos objetivos em comum ou interesses a compartilhar. Amor é trocar olhares, vontade de se beijar e ter uma ou duas conversas relativamente íntimas, quando muito.

É claro que a pessoa com quem você namora não precisa ser uma cópia exata sua, mas estou cansada de ver amigas sofrendo por rapazes que elas nem mesmo gostam como pessoa. O processo de descoberta e negociação no começo de um relacionamento é longo, cansativo e raramente leva a um “Eu te amo pra sempre“. É mais simples acreditar que estamos vivendo a paixão de nossas vidas, mesmo que isso signifique se engajar emocionalmente com pessoas incompatíveis em situações semi-ou-totalmente-imaginárias.

Finja ser outra pessoa

Um clichê narrativo que curto muito é quando o casal está fingindo um para outro que são pessoas diferentes. Por exemplo: Andie, de Como perder um homem em dez dias, está decidida a agir como a mulher mais estereotipicamente irritante do mundo, enquanto o boy-lixo Ben tenta se comportar como um “cara legal”. É óbvio que a única conclusão possível quando a farsa é revelada é de que os dois se amam de verdade, embora eles nem mesmo saibam com quem estão se relacionando, JÁ QUE AMBOS ESTAVAM FINGINDO SER PESSOAS DIFERENTES. Caramba.

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Se odeiem

Mas, se você e o rapagote da vez tiverem mesmo que conhecer um ao outro (eca!), vocês vão ter que se odiar. Atração sexual é supostamente baseada no quão opostas são suas convicções políticas ou seus estilos de vida e com quanta agressividade vocês conseguem expressar isso.

Curiosamente, em boa parte desse nicho de filmes, o ódio da mocinha é motivado pelo fato de o mocinho em questão ser um babaca, o que me parece um sentimento bastante razoável. Ao longo do filme, porém, vamos perceber que ele não é tão babaca assim. É aí que um vilão aparece para fazer o mocinho parecer menos babaca ainda em comparação, já que ele não é “igual aos outros caras”. No fim da história, o jovem só parece 20% babaca em relação ao que era no começo e portanto perfeitamente elegível para ser o amor da vida da personagem principal.

Em Dez coisas que odeio em você, por exemplo, o fato de Patrick ter aceitado sair com Kat por dinheiro é amenizado porque o cara que pagou por isso era o VERDADEIRO babaca. Em comparação, Patrick era o próprio Príncipe de Gales – ah, ele também compra uma guitarra para Kat (vide próximo tópico).

Tenha dedo podre

Se você for uma mulher hétero em busca de amor, escolha bem. Você deve procurar um cara que seja a) mentiroso, b) emocionalmente indisponível, c) ligeiramente agressivo, d) tenha feito uma aposta para te pegar ou e) todas as opções anteriores. Mas não se preocupe, porque nos últimos quinze minutos de filme ele vai trazer uma caixa de som tocando uma música romântica, fazer um número de dança ou simplesmente dizer “Eu te amo” e tudo estará resolvido.

Hollywood provavelmente foi a responsável número 1 por incutir na cabeça de milhões de pré-adolescentes a possibilidade de que um rapaz terá seu caráter magicamente transformado pelo “amor” e que gestos grandiosos são a forma ideal de demonstrar isso. Repare que um gesto grandioso é um conceito relativo. O próprio ato de declarar “Eu te amo” pode ser representado como um ato corajoso do nosso bravo herói, Homus emocionalmentim reprimidus, cuja cruz a carregar são os próprios sentimentos e ter de lidar com a expectativa de que eles sejam expressados em algum momento.

Resumindo

Amor é um sentimento repentino que não se escolhe e não se pode controlar, um imperativo moral que devemos seguir e que nos enobrece, mesmo se no final da história ele nos leve para lugares estranhos como beijar em rede nacional o professor de ensino médio que estava prestes a nos assediar (Nunca fui beijada) ou consultar o tarô cinquenta vezes para saber porque o fulano visualizou e não respondeu (minha vida).

Texto por:

amanda

Criadora do blog Deixa de Banca – http://www.deixadebanca.com.br

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2 comentários em “Se apaixone como em uma comédia romântica”

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