O cara da livraria

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O cara da livraria é só um cara normal. Quer dizer, ele tem mais barba e mais tatuagens que um cara normal. Mas se ele fosse de fato normal, eu não estaria escrevendo sobre ele aqui agora. Porque escrever sobre caras específicos assim aqui, não é tão normal.

Peguei um livro e me direcionei até ele, ainda sem perceber que ele era um cara antes de ser o cara da livraria. Olhando pra baixo como de costume, com minha expressão capricorniana – e por expressão capricorniana entende-se uma expressão de profundo tédio quando na verdade eu só estou de boa. Muitas vezes até felizinha, mas meu rosto não me acompanha. Talvez se eu tivesse esperado mais um mês dentro da barriga da minha mãe, como era pra acontecer, eu seria de aquário e todo esse rolê seria diferente. Eu não pareceria tão entediada mesmo sem estar.

“Oi, qual o valor desse livro, por favor?” – eu ainda olhando pra baixo, num piloto automático que classifica bem a minha geração.

“Boa! Esse livro é muito bom, viu?” – ele quebrou meu piloto automático. Olhei seu rosto, que parecia imerso em uma piscina de satisfação, seus olhos brilhavam pra mim em doses homeopáticas – pois seu olhar também dançava o “chão-chão-chão”.

Vi a resposta dele como uma chance de alongar o assunto. Poderia embalar num “Poxa, sério? Você já leu? Me conta um pouco da história?” Mas no lugar disso, eu só consegui dizer um “Legal. Obrigada, tchau-tchau.”

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Tão típico de livraria.

Tão típico da Geração Y.

Tão típico de capricórnio.

Peguei meu livro e sai da loja pensando no quanto eu queria saber pelo menos o nome dele, a idade, o signo, o tipo sanguíneo, ficha criminal. Na era Tinder, onde escolhemos e descartamos pessoas com apenas um clique no conforto de nosso lar, uma paquera de livraria olho-no-olho, ao vivo e a cores, nos deixa desconsertados demais.

E era isso que me encantava no cara da livraria. Eu não ia saber mais sobre ele com um clique em “sobre”. Eu não ia ver fotos dele com os amigos no final de semana. Não ia saber se ele tinha namorada. Ou namorado. Que tipo de rolê ele curtia, que tipo de lugar ele gostava de ir, que estilo musical ele amava, ou o que significavam suas tatuagens. No app, o cara da livraria poderia ter passado batido por mim, mas pessoalmente ele sustentava um mistério palpável que me fazia querer saber mais sobre ele.

E eu não ia saber. N-U-N-C-A.

A não ser que eu volte lá depois de ter tomado um porre de coragem, e puxe assunto com ele. A não ser que chegando lá, eu dê a sorte de escolher outro livro que ele já tenha lido. A não ser que ele esteja lendo esse texto exatamente agora, e tenha se reconhecido a ponto de vir falar comigo – mas pra tudo isso ainda temos que contar com a possibilidade de ele ser hétero e ter gostado de mim.

Acho mesmo que tudo seria mais fácil se eu fosse de aquário.

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6 comentários em “O cara da livraria”

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