Desculpe, sou de humanas

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Meu relacionamento com os números sempre foi conturbado. Nunca gostei deles e esse sentimento é recíproco, tanto que – só de sacanagem – eles me ferraram várias vezes no colégio. Quando entrei na faculdade de Design, achei que finalmente ia poder estudar só ciências humanas – livre de números – mas na verdade nossa história só estava começando: geometria, réguas, gráficos, medidas, conta-fios, softwares, exatidão em tudo e o troco da gráfica que sempre vinha errado e eu tinha que conferir.

Mesmo assim nunca quis entender os números, talvez por falta de interesse, talvez como forma de protesto, uma resistência em acreditar que as coisas são como são, exatas, e não existe um desvio, uma segunda opção a um 2+2, uma nova chance pra fazer diferente, um passe de mágica, uma Plataforma 9-3/4. Considero muito o valor dos estudos matemáticos na sociedade, mas o meu mundo não é de exatas – talvez isso ainda me renda alguns meses de terapia.

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E vivendo nessa filosofia, me tornei aquela pessoa que abre a calculadora do celular a cada vez que vai comprar alguma coisa, mesmo que essa coisa seja dois Mentos de R$2,50. Me tornei aquela pessoa que pergunta “Miga, quanto é 54 semanas?” ao stalkear o perfil do boy no Instagram. Me tornei aquela pessoa que entra em crise quando precisa separar 16 pessoas em dois times pra jogar Imagem-e-Ação e me acostumei inconscientemente a criar laços com gente que tivesse facilidade em matemática e pudesse sempre limpar a minha barra depois de alguns drinks na saída do bar.

Mas há um segredo que precisa ser revelado aqui. Um segredão.

Esses dias entrei em um outlet perto de casa. Eles vendiam peças que no shopping chegaram a custar o mesmo que uma viagem pra Aruba, ida e volta + hotel com café da manhã & passeios turísticos. Pra 5 pessoas. Mas nesse outlet essas mesmas peças estavam com 70% OFF – segundo a placa do lado de fora. Entrei. A loja estava cheia de peça linda, peça boa, peça chique, peça que ia fazer com que eu me sentisse muito rica, muito muito muito milionária, peça que ia me fazer dar altas gargalhadas virando a cabeça pra trás, segurando uma taça de espumante na mão. Eu precisava comprar, era questão de vida ou morte.

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Nesse momento me recordei do meu último estrato bancário. Em frações de segundos avaliei a relação que ele teria com cada uma daquelas peças, que tinham o valor inteiro na etiqueta + 70% OFF – não tinham o valor final. Minha cabeça nunca funcionou tão rápido: valor X – 70% + Valor Y – 70% x 2 + 3x Z – 70%, tudo isso dividido por X parcelas e subtraídas no meu orçamento, calculando quanto posso faturar nos próximos meses. Pego calculadora, elaboro a equação, faço a continha de cabeça, olho pra cima e mexo o dedinho apontando pro nada como a gente faz quando a conta é complexa, chego vitoriosa no caixa. Sei o quanto vou ficar endividada mas sei também que a causa é boa. Me emociono ao refletir que existem fortes semelhanças entre mim e aqueles matemáticos e físicos gregos que viveram há 500 anos atrás e tinham o cabelo engraçado, e a semelhança não é só a parte do cabelo engraçado: nós só precisamos de uma boa oportunidade pra começar a criar problemas matemáticos – e acho que no caso deles nem foi tão legal quanto uma liquidação. E nem tão problema quanto esse que fui me meter.

Se ligarem do banco, fala que eu não tô?

Beijos, Lady Newton.

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